Catitinha

  Catitinha… Porquê?

 

Uma revoada de crianças, em volta de um indivíduo de compridas barbas brancas e um simpático sorriso, era normal ver-se nas imediações do Tamariz. Como figura um tanto grotesca, cativava os garotos, porque sempre que um o cumprimentava ele apitava para alegria e gargalhada geral. Nunca deixei de cumprimentar o Catitinha e sempre que atravessava a estrada, deixava-me conduzir por ele docilmente; Era uma das suas funções em frente à Estação do Estoril, ajudar as crianças a atravessar a estrada com segurança.

Esta figura era sem sombra de dúvida, cómica e simpática para todos nós, aqueles olhos de um verde brilhante num rosto suave e elegante atraía, quando se notava a sua ausência, algo parecia faltar na zona do Tamariz, a praia do Estoril.

Uma das coisas que nos chamava a atenção era a maneira fixa como nos olhava e depois exibia um sorriso muito dócil, mas onde se notava tristeza e desilusão. Aquele homem era um mistério para mim.

Muito se falava mas muito pouco se sabia do Catitinha, os jovens apenas gostavam de se divertir com aquela figura, no entanto ficou para sempre gravado essa imagem, de homem bom e misterioso.

 

Ao sair do Casino Estoril, dirigi-me para o estacionamento frontal ao edifício, quando vi uma senhora ser assaltada por um indivíduo ainda bastante jovem, teve o azar de vir na minha direcção, rapidamente o derrubei e imobilizei. A senhora vinha na minha direcção e recolheu a bolsa roubada. O guarda do estacionamento tomou conta do meliante.

- Agradeço-lhe fervorosamente, porque teria um grave problema se ele tivesse levado a minha bolsa. Foi muito corajoso.

- Não tem de agradecer minha senhora. Uma boa noite para si e tenha cuidado.

- Terei sim e mais uma vez agradeço o que fez por mim.

Entrei no carro e dirigi-me para casa; Curioso, tinha visto esta senhora de belíssima cabeleira loira e olhos fervorosamente verdes, lembrei, fora nas máquinas do casino, onde distraidamente fazia pela sorte.    

 

Estivera dois anos fora do país, nada me distraía mais que jantar no casino e ver o espectáculo, normalmente de muito bom gosto, para comemorar o regresso. A fotógrafa veio tirar-me mais uma foto, dizia ela em ar de gracejo: O mais belo sorriso masculino deste casino. Agradecia e pagava bem a simpatia dela.

- Posso sentar-me na sua mesa ou  tem companhia?

Olhei estupefacto, era a senhora a quem eu conseguira reaver a bolsa.

Levantei-me e disse-lhe com cortesia: – Por favor, minha senhora, será um gosto para mim a sua companhia.

- Você desapareceu. Nem cheguei a agradecer convenientemente.

- Estive fora cerca de dois anos e na verdade não tem nada que me agradecer.

- Não! Desculpe, o senhor foi corajoso ao enfrentar aquele meliante bem mais jovem.

- Ora coitado, era bem mais pequeno que eu. – Disse sorrindo.

- Mas podia estar armado.

- Engolia a arma, não gosto dessas valentias.

- Você é corajoso.

- Qualquer pessoa faria o mesmo que eu.

- Olhe que não sei. Mas a verdade é que tinha tudo de importante naquela bolsa e se a levasse, eu teria problemas graves mesmo. Você é do Estoril?

- Nascido e criado aqui. E a senhora?

- Trate-me por Eneida.

O espectáculo começara e silenciou-nos, aproveitamos para comer o belíssimo repasto que se nos oferecia.

Ela sorrio ao ver a minha cara de agrado quando a bailarina apareceu semi-nua.  

- Já vi que gosta mesmo de mulheres.

- Disso não tenha dúvida.

Continuamos em silencio, mas furtivamente atentava naqueles olhos despudoradamente verdes, a contrastar com o farto e bem tratado cabelo loiro, emoldurando um rosto suave e elegante.

- Por que me observa?

- Porque gosto.

- Bom! É uma razão.

- Curioso, parece que a conheço de há muito.

- De quando me roubaram a bolsa.

Uma estrondosa salva de palmas, premiava os artistas que haviam terminado o espectáculo. Levantamos para aplaudir aqueles maravilhosos bailados que tinham executado. novamente sentados continuamos a amena conversa.

- Não é assim… É difícil precisar, mas esses olhos não são novidade para mim. Andou aqui na escola em menina?

- Esta a tentar engatar-me? Não vai ser fácil. – Disse sorrindo.

- Nada disso, pode estar descansada.

- Porquê não lhe agrado? – Sorrio e continuou. – Daqui não me conhece, saí do Estoril com ano e meio e só voltei depois de enviuvar. Estive sempre em Londres. A única pessoa que aqui ficou foi o meu avô, que enlouqueceu. Por isso os meus olhos, não eram de certeza.

 

Levantamos da mesa e caminhamos para a sala de jogos. Onde ela foi direitinha à máquina que intitulava sua.

- Esta é a minha companheira de todas as noites.

- Eu creio que já a vi aqui.

- Pode ser!

Separou cerca de cinquenta fichas que tirou de uma bolsinha e começou a jogar.

- Porra! Estou com azar.

- Azar ao jogo sorte aos amores.

- Não me goze… OK?

- Por favor! Largue isso e vamos beber um copo. Vai ver que fica mais bem disposta.

A máquina engoliu as cinquenta fichas e nem uma lhe deu.

- Está visto vou dormir consigo, com este azar todo.

- Está visto vou dormir consigo, com esta sorte toda.

- Irra! Você está a gozar-me indecentemente.

- Eneida acredite, só a quero bem disposta.

- Bom! Vamos lá beber o copo.

Sentamos perto de um dos dois palcos que animavam o recinto e rapidamente uma menina, com uma saia bem curtinha, veio saber o que pretendíamos. Pedimos dois whiskys de doze anos com dois cubos de gelo e começamos a conversar.

- Mas conte lá isso do seu avô louco, porque eu posso ter conhecido.

- Nunca ouviu falar do Catitinha?

- Claro que ouvi… É uma das minhas recordações de infância. Ele e seu apito a cumprimentar todos os meninos.

- Sim! Disseram-me que ele fazia isso e em cada criança via o neto que perdeu.

- Por amor de Deus conte-me essa história, porque esse homem sempre foi o mistério da minha vida.

- Foi assim, meus pais viviam aqui no Estoril com o meu avô, que nos adorava e como o meu irmão tinha cinco anos muitas vezes saia com meu avô a passear. Um dia ao atravessar a marginal em frente da Estação do Estoril viu uma criança sair do passeio e ir para a estrada, rapidamente largou o meu irmão e salvou o menino, que o carro ainda o atingiu e matou o meu irmão ao tentar desviar-se do meu avô. Foi a tragédia, quando ele acordou no hospital ao lhe contarem o que aconteceu, quando saiu da cama apenas disse:

- Já venho, vou à procura do meu neto. Nós fomos para Londres e meu avô ficou entregue a meu tio.

- Meu Deus que história mais triste. Agora entendo o que se passava com ele e sua loucura. Era um homem bom, eu adorava o Catitinha.

- Ainda queres dormir com a neta do Catitinha?

- Claro que quero.

- Na minha ou na tua?

- Na tua é mais feminina.

- Vê-se! Porque perdi ao jogo.

 

António Zumaia

24 de Outubro de 2007  

 

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Uma resposta a Catitinha

  1. pandora diz:

    Obrigada pela sua visita e não menos simpáticas palavras.
    Dei uma espreitadela aqui, no seu espaço que também acho muito interessante.
    Cumprimentos
    Pandora

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